CUIDAR O DOENTE ONCOLÓGICO NO INTERNAMENTO
AUTOR: Rodrigo Nunes (Enfermeiro Graduado do Instituto Português de Oncologia de Coimbra Francisco Gentil, EPE)
ANO: 2002
É consensualmente aceite que o Cuidar constitui a prática por excelência da actuação dos enfermeiros permitindo afirmar a nossa identidade como profissão com saberes próprios.
Contudo, durante a nossa formação académica e contínua, a sedução pela tecnologia, pelas tarefas a executar, pelas acções a pôr em prática, ou seja, pelo saber e pelo saber-fazer assume inevitavelmente um papel preponderante sobre o saber-ser que tem como consequência primária a aproximação da nossa actuação ao modelo biomédico.
Como seres humanos é difícil conciliar o nosso ideal de curar na nossa formação como pessoa com o nosso ideal profissional de cuidar.
Para isto contribuem as constantes descobertas científicas na área da saúde, que permitem aumentar a esperança de vida do Homem e que parecem criar na Sociedade cada vez mais a ideia de imortalidade, exigindo dos profissionais de saúde que tudo seja feita no sentido de tratar o órgão ou sistema doente em detrimento do cuidar da pessoa doente no seu todo.
As intervenções de enfermagem passam então a centrar-se na tarefa e a ser determinadas por prescrições médicas, organização dos serviços e exigências diversas.
A tendência da opção por um modelo biomédico de actuação manifesta-se na sua plenitude no final do nosso Curso.
Prestes a iniciar a nossa actividade profissional, quantos de nós o idealizaram fazer num Serviço de Medicina ou particularmente em Oncologia, contraposto àqueles cujo desejo se direccionou para Serviços com tecnologia de ponta como Blocos Operatórios, Serviços de Urgência ou Cuidados Intensivos.
Se fizermos uma sondagem junto dos nossos alunos depressa percebemos que apesar da sua formação académica ser orientada no sentido do cuidar, a sua preocupação primeira em ensino clínico é desenvolver a destreza manual e dispor do máximo de oportunidades para pôr em prática o seu saber e o seu saber-fazer.
Constatamos ainda que a sua maior dificuldade, e talvez mesmo a nossa como profissionais, é precisamente o saber-ser com o doente, ou seja o aspecto relacional e o culto da relação de ajuda.
Para além disso, é frequente em conversas informais trocarmos impressões com outros colegas sobre a nossa prática diária dando mais ênfase às actividades interdependentes, aos aspectos técnicos e aos feitos dos outros profissionais de saúde e muito pouco às nossas actividades autónomas e aos aspectos relacionais com o doente.
Se para um enfermeiro é difícil desenvolver os aspectos relacionais com qualquer doente, mais se agrava se se tratar de uma pessoa com cancro pois poucas são as doenças que causam maiores sentimentos de ansiedade e apreensão do que o cancro.
Isto acontece porque a representação da saúde está comummente associada à ausência de doença e o cancro apresenta uma conotação social com sofrimento, mutilação, dor, dependência, rejeição e morte. É a chamada doença prolongada ou incurável.
Cuidar do doente com cancro constitui mesmo uma das actividades mais exigente e desgastante tanto a nível físico como psíquico a que estão sujeitos os profissionais de enfermagem assistindo-se muitas vezes à falência do tratar emergindo então o cuidar, o que requer uma grande maturidade profissional e estabilidade emocional face a esta doença.
O enfermeiro tem então a excelente oportunidade de aliar as suas habilidades técnicas às relacionais.
Para isso deve ter consciência que a reacção de cada pessoa perante uma situação de cancro é única, logo não há fórmulas fáceis para estabelecer um modelo ideal na relação com estes doentes.
Contudo, o primeiro contacto é um momento privilegiado e de grande importância e fica para sempre marcado nestes doentes.
Muitas vezes mais importante que a comunicação verbal são os nossos gestos, expressões faciais ou o próprio tom de voz.
Para além do primeiro contacto, existem alguns princípios e valores que devem prevalecer e nortear sempre a relação enfermeiro/doente como seja o respeito pelo outro, reconhecendo cada doente como uma personalidade própria e única, transmitir as informações de forma clara, de acordo com a especificidade individual de cada doente e à medida dos seus desejos. Passa também por saber respeitar o silêncio e procurar desse modo estimular a capacidade de reflexão do doente sobre si mesmo dando-lhe oportunidade e tempo para expressar as suas emoções, e esclarecer as suas dúvidas e preocupações.
Devem ser evitadas atitudes como a frieza, falta de sensibilidade, de afecto, desinteresse ou distância substituindo-as por outras como o calor humano, a compreensão e mais importante que isso mostrar-se e manter-se interessado escutando o doente com todos os nossos sentidos.
Em confronto com situações emocionalmente mais desgastantes tais como quando o doente nos aborda sobre o seu diagnóstico ou prognóstico de doença, temos tendência a adoptar muitas vezes, por vezes inconscientemente, mecanismos de protecção e defesa, como: negação da situação, distanciamento, manutenção de relações superficiais com os doentes, instituição de rotinas e protocolos, argumentando falta de tempo e de disponibilidade para ouvir e estar junto dos doentes.
Para além disso, para poder ser eficaz na sua actuação, o enfermeiro deve conhecer o impacto emocional que o diagnóstico do cancro tem sobre o doente e a família evitando juízos de valor.
Situações como choque, negação, raiva, instabilidade emocional e ansiedade são frequentemente acompanhados por distúrbios físicos vários.
Assim, estes doentes têm necessidade de conseguir uma verdadeira relação de confiança com a equipa de saúde, estabelecer uma comunicação aberta, honesta, verdadeira e frequente com a equipa desempenhando os enfermeiros um papel fundamental e privilegiado como interlocutores pelo tempo que passam junto do doente com cancro.
O doente necessita ter a garantia que a equipa de saúde fará o maior esforço possível para minimizar os seus sintomas psicológicos e físicos e perceber que é envolvido na tomada de decisões sentindo-se útil.
Perante o surgimento de um problema ou necessidade devem ser proporcionadas e negociadas com o doente e família soluções realistas considerando se possível várias soluções para a resolução do seu problema evitando situações de fuga da nossa parte.
Se o doente pede um comprimido para dormir ou refere que tem dores mais fácil seria dar-lhe um medicamento em SOS para o efeito em vez de ser determinado junto do doente qual a verdadeira causa desse problema.
Um dos passos facilitador dessa negociação passa por o enfermeiro proporcionar à família o seu envolvimento nos cuidados a prestar ao doente internado incentivando-a a prestar cuidados tão básicos como sejam a alimentação, os cuidados de higiene ou mesmo o apoio emocional.
Para tal é desejável que os Internamentos disponham de condições físicas para tal, o doente e família manifestem o seu desejo nesse sentido e o enfermeiro tenha consciência que a família deve fazer parte do processo terapêutico e não como substituto ou "fiscal" dos cuidados de enfermagem.
Só com o envolvimento da família no processo de cuidar o doente oncológico internado, esclarecendo todas as suas dúvidas e preocupações, se poderá garantir qualidade e sucesso na continuidade de cuidados a prestar no domicílio tentando minimizar com isso o impacto do cancro no doente e família.
O tempo investido na escuta do doente com cancro e família nunca é tempo perdido pois como dizia Saint-Exupéry "É o tempo que dás à tua rosa que a torna importante para ti"
Temo, contudo, que com a recente empresarialização de 31 hospitais (entre os quais os três principais Centros de Oncologia Nacionais) e a incerteza acerca do futuro da Carreira de Enfermagem, a tarefa, ou seja o tratar o órgão ou sistema doente, a preocupação pelo lucro e pela quantidade de intervenções efectuadas tenda a substituir cada vez mais a qualidade em cuidar o doente no seu todo a verdadeira essência da prática de enfermagem.
Para terminar, importa reflectir na frase de Hélène Lazure que diz "Ser enfermeiro exige mais que saber e saber-fazer. Para o enfermeiro o ser humano constitui o objecto directo da sua competência em toda a sua força, vulnerabilidade, numa palavra, no seu todo. Por isso, o enfermeiro deve desenvolver também o seu saber-ser tanto consigo como com o doente".