HORMONOTERAPIA

 

A hormonoterapia baseia-se no princípio de que a administração ou subtracção de hormonas, funcionando através de mecanismos citostáticos em vez de citotóxicos, pode interferir com o crescimento tumoral.

 

CLASSIFICAÇÃO DA HORMONOTERAPIA

 

Segundo LOUREIRO et al (1999), podemos classificar a hormonoterapia, segundo o seu modo de actuação como:

-    Terapêutica Ablativa

-    Terapêutica Aditiva

-    Terapêutica Competitiva

-    Terapêutica Inibitória

Seguidamente iremos efectuar uma pequena abordagem a cada uma das terapêuticas bem como aos respectivos fármacos utilizados.

 

Terapêutica Ablativa

 

Como exemplo deste tipo de terapêutica temos a ovariectomia, a orquiectomia, a suprarenalectomia: (implica a abolição completa dos esteróides sexuais em doentes previamente castrados) e a hipófisectomia.

Esta última intervenção cirúrgica leva à supressão da secreção de gonadotrofinas, impedindo a produção de estrogénios e/ou androgénios. Simultaneamente desaparecem a somatotrofina e a prolactina, também implicadas no crescimento tumoral.

 

Terapêutica Aditiva

 

Androgénios: Testosterona e Androstenediona

São utilizados no tratamento paliativo do cancro da mama avançado, actuando por inibição das gonadotrofinas hipofisárias e redução da actividade ovariana na pré-menopausa; pela transformação em estrogénios e pela competição com os estrogénios para as células receptoras alvo.

 

Estrogénios: estradiol e estrona (ex: dietilestilbestrol)

O seu mecanismo de acção como terapêutica antitumoral não é ainda bem conhecido.

No carcinoma da mama produzem um efeito antitumoral directo, resultante da alteração na homeostase hormonal.

No carcinoma da próstata actuam por um mecanismo de feed-back negativo levando à inibição da secreção de gonadotrofinas hipofisárias e à consequente diminuição da secreção de androgénios.

 

Progestinas: progesterona (ex: acetato de megestrol)

Provocam a diminuição na concentração dos receptores de estradiol, depleção dos receptores de progestina e interacção com outras hormonas circulantes.

As suas acções específicas incluem uma acção antiestrogénica directa com diminuição das gonadotrofinas e diminuição da taxa de transformação de androgénios em estrogénios bem como uma acção antiandrogénica, devido à inibição hipofisária.

Estão indicados no carcinoma avançado da mama ou do endométrio, recidivante, inoperável ou metastático.

 

Corticosteróides (ex: dexametasona e metilprednisolona

No carcinoma da mama, a administração de altas doses de corticóides permite a inibição da ACTH e, consequentemente, a inibição da produção de estrogénios pelas suprarenais.

Nos tumores linfóides, o seu mecanismo de acção parece estar relacionado com os receptores citoplasmáticos para corticóides.

São utilizados ainda no tratamento paliativo de metástases cerebrais e tumores do SNC por mecanismos que permitem a estimulação das enzimas necessárias à diminuição da resposta inflamatória bem como antiemético e na prevenção de reacções de hipersensibilidade na administração de Taxanos.

 

Hormonas tiroideias (ex: T4 - tiroxina e T3 - tri-iodotironina)

Em oncologia, a sua utilização; tem dois objectivos: como terapia de substituição após tiroidectomia total e a inibição, por mecanismo de feed-back negativo, da libertação de TSH pela hipófise, afectando a hormonodependência de muitos tumores da tiróide.

 

Terapêutica Competitiva

 

Antiestrogénios (ex: tamoxifeno)

A sua acção antineoplásica relaciona-se principalmente com o mecanismo de competição com o estradiol.

A diminuição resultante nos complexos estrogénio-receptor resulta na regressão do tumor hormonodependente.

Possuem capacidade para diminuir a concentração plasmática de prolactina através do bloqueio da acção estrogénica nas células hipofisárias.

Actuam ainda por indução da síntese de receptores para a progesterona, tornando a célula sensível a um tratamento com progestinas.

Estão indicados no carcinoma da mama hormonodependente em mulher na menopausa, carcinoma da mama no homem e carcinoma avançado do ovário.

 

Antiandrogénios (ex: acetato de ciproterona)

Competem especificamente ao nível dos receptores da célula alvo. Actuam a nível hipofisário com diminuição de LH e FSH e, consequentemente, diminuição dos níveis de testosterona.

Produzem um efeito inibitório no crescimento da próstata e vesículas seminais no carcinoma da próstata inoperável.

 

Terapêutica Inibitória

 

Inibidores da aromatase (ex. aminoglutetimida, anastrozol, letrozole)

A sua acção na biosíntese de estrogénios resulta da transformação dos androgénios em estrogénios por um processo de aromatização que ocorre a nível de tecidos periféricos como a gordura, músculo e fígado e ainda no próprio tecido tumoral.

Têm indicação terapêutica no carcinoma da mama avançado em mulheres pós-menopausa com recidiva ou progressão da doença após tamoxifeno e no carcinoma da próstata metastizado.

 

Análogos LHRH (ex. goserelin)

Têm uma acção central a nível da hipófise, que consiste na estimulação inicial, com consequente aumento dos níveis de LH e FSH, e com a continuação do tratamento, de uma inibição da libertação das hormonas referidas conduzindo a uma diminuição dos níveis séricos de testosterona.

Quando usados na mulher, levam a uma inibição da produção ovariana com consequente diminuição dos níveis séricos de estrogénios.

Estão indicados no carcinoma avançado da próstata e no carcinoma da mama hormonodependente na pré e peri-menopausa.

 

EFEITOS SECUNDÁRIOS MAIS RELEVANTES - ACÇÕES DE ENFERMAGEM

 

Em hormonoterapia, na administração de qualquer fármaco, deve ser prática comum do enfermeiro, informar o doente dos efeitos secundários bem como alertar o doente para comunicar sinais e sintomas não habituais.

Para LOUREIRO et al (1999) existe um conjunto de acções de enfermagem específicas direccionadas para os diferentes efeitos secundários que cada fármaco provoca que podemos resumir no quadro seguinte:

 

FÁRMACOS

EFEITOS SECUNDÁRIOS

ACÇÕES DE ENFERMAGEM

Androgénios

  • Voz grossa

  • Acne

  • Alopécia

  • Síndrome cushingóide

  •  Hipertrofia do clítoris

  • Aumento da libido

  • HTA e taquicardia

  • Edema por retenção de líquidos

  • Toxicidade hepática

  • Hipercalcémia

  • Aumento do apetite e do peso

  • Avaliação de SV

  • Vigilância da diurese

  • Vigilância do aparecimento de edemas

  • Controlo do peso

Estrogénios

  • Náuseas e vómitos

  • Diarreia

  • Cefaleias

  • Astenia

  • Sangramento ou hemorragia vaginal

  • Alterações da função renal

  • Diminuição do tónus da bexiga

  • Escurecimento dos mamilos

  • Ingurgitamento mamário

  • Retenção de sódio

  • Embolia pulmonar, HTA

  • Hipercalcémia.

  • Avaliação de sinais vitais

  • Avaliação da diurese

  • Vigiar aparecimento de edemas

  • Controlo do peso

  • Informar o doente que os comprimidos devem ser ingeridos antes das refeições

Progestinas

  • Aumento do apetite e do peso

  • Náuseas e vómitos

  • Diarreia/obstipação

  • Síndrome cushingóide

  • Metrorragias e alterações menstruais

  • Retenção de líquidas,

  • Diminuição da libido e ginecomastia nos homens

  • Controlo do peso

  • Avaliação de diurese

  • Vigilância de hemorragias

Corticosteróides

  • Ulceração/perfuração gastrointestinal

  • Imunossupressão

  • Edema

  • Hiperglicémia

  • Aminoacidúria e glicosúria

  • HTA

  • Síndrome cushingóide

  • Fragilidade da pele e vasos sanguíneos

  • Hiperlipidémia

  • Com a continuação do tratamento pode ocorrer atrofia muscular, osteoporose, glaucoma e cataratas

  • Vigilância de TA, temperatura e glicémia

  • Vigiar sinais de hemorragia gastrointestinal

  • Vigiar aparecimento de edemas

  • Via oral: Administrar acompanhado de adoçante

Hormonas tiroideias

  • Síndrome Tireotóxico: taquicardia, tremores, ansiedade, HTA, sudorese, insuficiência cardíaca.

  • Avaliação de sinais vitais

Antiestrogénios

  • Náuseas

  • Afrontamentos

  •  Rash transitório

  •  Sangramento vaginal

  • Trombocitopenia e leucopenia ligeiras

  • Processos tromboembólicos

  • Hepatotoxicidade

  • Aumento de peso

  • Carcinoma do endométrio

  • Informar as mulheres em idade fértil que devem fazer contracepção não hormonal

  • Potencialização do efeito da varfarina - vigiar aparecimento de equimoses e/ou petéquias

Antiandrogénios

  • Astenia

  • Anorexia

  • Náuseas/vómitos

  • Inibição da espermatogénese

  • Diminuição da libido

  • Ginecomastia

  • Reacções alérgicas

  • Informar os doentes que desejem fecundação após tratamento da possibilidade de recolha de esperma

Inibidores

da

aromatase

  • Letargia

  • Rash cutâneo

  • Febre

  • Ataxia.

  • Avaliação de temperatura

Análogos LHRH

  • Dor no local da injecção

  • Nas Mulheres: Síndrome menopáusico (manifestado por sudorese e afrontamentos)

  • Nos Homens: Impotência, Diminuição da libido

  • Possibilidade de exacerbação das dores ósseas e compressão medular em caso de metastização óssea

  • Aplicação de anestésico tópico no local de injecção

  • Informar a mulher em idade fértil que deve comunicar a ocorrência de ciclos menstruais e efectuar contracepção não hormonal

  •  Informar os doentes que desejem fecundação após tratamento da possibilidade de recolha de esperma