EFEITOS SECUNDÁRIOS DA QUIMIOTERAPIA

INTERVENÇÕES DE ENFERMAGEM

 

A quimioterapia é uma das modalidades terapêuticas mais difíceis de suportar pelos doentes devido aos efeitos secundários mais exacerbados e graves que provoca.

Neste campo, o enfermeiro desempenha um papel fundamental quer no ensino específico que deve ser efectuado, alertando o doente e família para a ocorrência destes efeitos secundários e para a necessidade de comunicarem o seu aparecimento, quer pela prevenção, detecção precoce e instituição de medidas específicas consoante o citostático em presença.

Estas acções específicas de enfermagem encontram-se resumidas no quadro seguinte (RUSSO e GÓIS, 1993 e LANGHORNE, 2000):

 

Efeito Secundário

Principais Fármacos

Intervenção de Enfermagem

Dor no local da punção

  •  Carmustina

  •  Dacarbazina

  • Agentes vesicantes

  • Confirmar se existe ou não extravasamento do produto

  • Diminuir o ritmo de perfusão

  • Em bólus - aumentar o ritmo da perfusão do soro fisiológico na lavagem

  • Aquecer o membro puncionado

  • Aumentar o volume de soro na diluição

Reacções anafiláticas

  • Taxanos

  • Alcalóides da Vinca

  • Suspender imediatamente o tratamento

  • Manter veia permeável com soro fisiológico

  • Monitorizar sinais vitais

  • Administrar corticosteróides por via endovenosa conforme prescrição

Náuseas e vómitos

(pode depender do próprio tumor e suas complicações)

Todos os fármacos provocam náuseas.

Os mais emetizantes são:

  • Cisplatina

  • Dacarbazina

  • Citarabina

  • Carboplatina

  • Metotrexato

  • Carmustina

  • Ciclofosfamida

  • Ifosfamida

  • Estar atento a emese de antecipação – apoio emocional

  • Informar doente da existência de antieméticos

  • Administrar antieméticos como protocolo

  • Incentivar a higiene oral

  • Proporcionar ambiente agradável

  • Despistar sinais de desidratação

  • Efectuar balanço hídrico se vómitos persistentes

  • Verificar os períodos em que a alimentação é melhor tolerada

  • Incentivar o doente a comer lentamente e a ingerir refeições pequenas e frequentes

  • Incentivar o doente a ingerir de líquidos no intervalo das refeições

Anorexia

Todos os fármacos

  • Proporcionar dieta atendendo:

  •  Ao equilíbrio nutricional

  • Aos alimentos preferidos do doente

  • À apresentação e variedade

  • Diminuir estímulos

  • Proporcionar refeições pequenas e frequentes e flexibilidade de horários

  • Providenciar apoio de nutricionista

  • Avaliar peso

Diarreia

  • Cisplatina

  • Dacarbazina

  • Fluoruracilo

  • Metotrexato

  • Dactinomicina

  • Irinotecano

  • Providenciar dieta pobre em fibras;

  • Evitar fritos, bebidas alcoólicas e alimentos condimentados

  • Registar frequência das dejecções

  • Administrar antidiarreicos em SOS

  • Realizar balanço hídrico se diarreia persistente

  • Incentivar a ingestão de líquidos

  • Despistar sinais de desidratação

  • Efectuar ensino ao doente e família para importância de higiene frequente da região perianal

Obstipação

Alcalóides da vinca

  • Proporcionar dieta rica em fibras

  •  Promover a mobilididade do doente

  • Incentivar a ingestão de líquidos

  • Registar frequência das dejecções

  • Administrar laxantes/realizar enemas em SOS

Mucosite/estomatite

  • Bleomicina

  • Dactinomicina

  • Daunorubicina

  • Doxorubicina

  • Epirubicina

  • Fluoruracilo

  • Metotrexato

  •  Efectuar ensino ao doente acerca de higiene cuidada e regular da boca

  • Evitar bebidas alcoólicas, tabaco, alimentos ácidos e duros, ou alimentos muito quentes ou frios

  • Administrar nistatina oral/solução de chlorhexidina ou bochechos/gargarejos com borato de sódio, após as refeições, como terapêutica profiláctica

  •  Administrar analgésicos locais

  • Manter humedecimento da cavidade oral

  • Lubrificar os lábios com vaselina

Alopécia

  • Ciclofosfamida

  • Doxorubicina

  • Vincristina

  • Dactinomicina

  • Daunorubicina

  • Etoposido

  • Epirubicina

  • Informar o doente para a ocorrência deste facto (na 3ª ou 4ª semana) e que é reversível

  • Alertar para a possível mudança de textura e cor do cabelo

  •  Instruir sobre os métodos de protecção como uso de óculos, chapéu e creme protector no couro cabeludo

  • Incentivar o doente a manter a sua aparência e vivência social (uso de lenços, perucas, chapéus, corte progressivo do cabelo)

  • Informar da possibilidade da utilização de “capacete de gelo” na administração de Epirubicina e Doxorubicina consoante prescrição médica

Toxicidade hematológica

(Leucopenia, anemia e trombocitopenia)

Todos os fármacos

  • Despistar sinais de mielossupressão (palidez, dispneia, petéquias, equimoses, taquicardia, febre)

  • Observar a ocorrência de hematemeses, melenas, tonturas, cefaleias, e hipotensão

  •  Inspeccionar locais associados a risco de infecção, feridas, orifícios naturais, locais de punções i.v.

  • Reforçar técnica asséptica

  • Providenciar ambiente seguro – evitar quedas

  • Desaconselhar o uso de lâminas de barbear e escovas de dentes

  • Evitar a administração de salicilatos e medicação por via intramuscular

  • Diminuir a realização de técnicas invasivas

  • Proporcionar alimentação de baixo teor bacteriano e rico em proteínas

  • Evitar contacto com pessoas portadoras de doenças transmissíveis

  • Informar o doente e família para a necessidade de limitar o número de visitas ao doente

  • Efectuar ensino ao doente, quando da alta, para despiste e comunicação daqueles sinais

Cardiotoxicidade

  • Daunorubicina

  • Doxorubicina

  • Epirubicina

  • Mitoxantrone

  • Ciclofosfamida

  • Ifosfamida

  • Avaliar sinais vitais

  • Providenciar períodos de repouso frequentes

  • Efectuar monitorização cardíaca em SOS

Toxicidade pulmonar

  • Bleomicina

  • Metotrexato

  • Mitomicina

  • Manter o doente em posição fowler;

  • Avaliar frequentemente a temperatura e função respiratória;

  • Administrar corticosteroides, conforme prescrição médica

  • Providenciar alívio de sintomas como ansiedade, dor e tosse;

  •  Estimular o levante

Neurotoxicidade

  • Cisplatina

  • Taxanos

  • Alcalóides da Vinca

  • Citarabina

  • Etoposido

  • Fludarabina

  • Ifosfamida

  • Metotrexato

  • Oxaliplatina

  • Vigiar estado de consciência

  • Estar atento a aparecimento de estado de confusão, desorientação, alucinações

  • Despistar sinais e sintomas de neuropatia periférica (parestesias, diminuição dos reflexos tendinosos profundos, dor na mandíbula, dor na garganta, mialgias, fraqueza muscular) e neuropatia craniana (ototoxicidade, perda do paladar, neuroretinite)

  • Implementar medidas para controlo de mialgias

  • Informar dos perigos da ingestão de álcool

  • Informar o doente para não ingerir alimentos e líquidos frios durante e 7 dias após a administração de Oxaliplatina - perigo de espasmo da glote

Toxicidade renal

e vesical

  • Cisplatina

  • Ciclofosfamida

  • Ifosfamida

  • Estreptozocina

  • Metotrexato

  • Incentivar o doente a ingerir líquidos e que urine frequentemente

  • Efectuar balanço hídrico ou avaliação de diurese (mínimo 100 a 150 cc/hora)

  • Avaliar pH urinário e manter alcalinização da urina durante 48 horas na administração de metotrexato

  • Proporcionar hidratação forçada endovenosa em SOS segundo prescrição médica

  • Administrar manitosteril em SOS conforme protocolo instituído

  • Informar o doente para a comunicação de disúria, polaquiúria, hematúria

  • Administrar uroprotectores segundo prescrição médica

Disfunção reprodutiva

e sexual

Todos os fármacos mas em especial ao agentes alquilantes

  •  Informar doente e família

  • Orientar os doentes do sexo masculino para a possibilidade de recolha de esperma para posterior fecundação

  • Informar as mulheres que devem usar contraceptivos não hormonais